PF encontra provas de grampos ilegais ordenados por Sergio Moro. Confira essas e outras notícias na newsletter das últimas semanas 20/01/26.
O fim de 2025 no âmbito da Lava Jato deu-se com novas perspectivas para o avanço das investigações contra a operação em 2026. Trata-se da descoberta pela PF de provas dos grampos contra autoridades, com determinações expressas de líderes do lavajatismo. Entre os nomes cujas investigações e processos devem progredir, Sergio Moro também terá momentos decisivos neste ano, visto que pretende ser candidato a governador na eleição que ocorrerá em outubro — sobre a qual, novidades seguem surgindo. O estigma que a Lava Jato construiu na sociedade brasileira segue um tema discutido em novos artigos, assim como seu passado que segue sendo estudado em documentários, como o da Caixa Preta da Lava Jato, lançado no dia 13 deste mês. Tudo isso na newsletter de 20/01/2026 do Museu da Lava Jato.
PF encontra provas de grampos ilegais ordenados por Sergio Moro, e novidades sobre Moro continuam a aparecer:
Após a realização de mandados de busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba no fim de 2025, os primeiros resultados da operação começam a aparecer. Entre eles, o destaque principal foi a descoberta de provas de ordens em 2005 do então juiz Sergio Moro, futuro líder da Lava Jato, para grampear conversas envolvendo Heinz Goerg Herwig, então presidente do Tribunal de Contas do Paraná. Trata-se de comprovação contundente da conhecida denúncia do ex-deputado paranaense Tony Garcia, que fora utilizado por Moro como agente infiltrado para gravar reuniões com alvos do ex-juiz.
Para além da demonstração do uso sistemático da referida estratégia, com indicação de que ocorrera mais vezes antes e depois do caso comprovado, há o agravante de Moro utilizá-la contra autoridade com foro privilegiado, cuja investigação deveria partir do Supremo Tribunal Federal. O restante das descobertas na operação da PF ainda não é conhecido, mas o caso em questão já foi direcionado para análise no STF.
Em resposta à notícia, Moro se resumiu a dizer que tal grampo não requereu autorização, que o caso não se relaciona com a Lava Jato e que seria apenas um esforço para tirar o foco da CPMI do INSS. A despeito de se tratar de uma resposta padrão com fuga para assunto diverso, Moro se esquece de que seu nome ocupa o centro da CPMI do INSS por conta de sua atuação no ministério de Bolsonaro, apenas mais uma investigação que o envolve.
Entre outras investigações, como a da chamada “festa da cueca” e ofício recente do ex-juiz da Lava Jato Eduardo Appio à PF para que se investigue Moro por coação, nota-se o modus operandi lavajatista extrapolando os limites da famosa operação. O uso de chantagem para produção de provas ilegais e fabricação de delações infundadas a cada nova etapa investigativa encontra evidências mais contundentes contra aqueles que as perpetraram e resumiam-se a negar, com a cumplicidade dos veículos de imprensa.
Estreia documentário A Caixa Preta da Lava Jato:
No dia 13/01 ocorreu a esperada estreia do documentário A Caixa Preta da Lava Jato, produzido pelo jornal GGN e transmitido em seu canal do YouTube TVGGN. O documentário, realizado com apoio de financiamento coletivo, põe a limpo os objetivos e planos dos agentes da operação e registra crimes ainda ocultos das forças lavajatistas. Além de explicar os esquemas de manipulação de processos, grampos ilegais e ascensões em cargos do judiciário associadas ao alinhamento lavajatista, o documentário também conta com entrevistas a juízes, ministro do Supremo e ex-PGR. Já está disponível gratuitamente na TVGGN no YouTube.
Lava Jato e EUA:
O ano de 2025 na política internacional brasileira foi profundamente marcado pelo tema das tentativas de intervenção política originadas dos Estados Unidos. Com o ano de 2026 ainda mal começado, a perspectiva é de que os esforços dos EUA sigam notórios, mas o estudo da história da Lava Jato é apenas um exemplo de como essa estratégia política estadunidense sempre esteve presente. Nesse sentido, a Agência Pública tem produzido nos últimos meses uma série de reportagens e materiais jornalísticos analisando o envolvimento do FBI com a operação. Em matéria mais recente, o tema é a reunião entre membros da força-tarefa e agentes estatais americanos no MPF RJ em janeiro de 2016.
Entre outros aspectos, são apresentadas conversas que passam desde valores de condenações que seriam de interesse dos EUA, desde dados sigilosos da justiça brasileira que envolviam figuras estratégicas como a ex-presidenta Dilma Rousseff, que sofreria impeachment meses depois. Ainda, a reportagem investiga a participação em reunião de agentes de inteligência do governo americano que não possuíam interesse oficial algum na Lava Jato, e como o repasse de informações definiu etapas da operação. A participação e o interesse dos EUA nos eventos ocorridos são conhecidos, mas a real profundidade dos atos ainda requer muita investigação para ser completamente desvendada.
O estigma lavajatista:
Ainda em estudos sobre o efeito da Lava Jato na sociedade brasileira, dois artigos foram publicados nas últimas semanas sobre o estigma que a operação deixou na narrativa midiática, no processo judicial e político brasileiro.
No artigo de André Moragas, publicado na Folha de São Paulo, é debatido o papel da mídia em perpetuar o estigma sobre a indústria brasileira que, ao longo dos anos de Lava Jato, foi desmantelada por um punitivismo que responsabilizava empresas em vez de indivíduos. Segundo o autor, é necessário que os veículos de imprensa repensem a forma como associam terminantemente as empresas ao seu passado como investigadas, em certa medida condenando-as perpetuamente à reputação destruída imposta pela operação, ainda que isso nada sirva à sociedade e economia brasileiras.
Já em artigo de opinião no ConJur, o tema é a suspeição generalizada que o pensamento antipolítico tornou comum no Brasil. Segundo o autor, o Efeito Lava Jato teria criado um estado de permanente suspeição, em que sempre haverá um embaraço a qualquer indicação pela mera tramitação, ativa ou inativa, de alguma ação envolvendo o indivíduo indicado. Em suma, esqueceu-se a função do transcorrer do devido processo legal e institucionalizou-se uma lógica de que qualquer menção legal iguala-se à condenação, o que não apenas criminaliza qualquer profissão política, como beneficia pela generalização aqueles que efetivamente se envolveram em corrupção.
Moro e eleições para o governo do Paraná:
Agora, com a chegada de 2026, inicia-se o ano eleitoral, e, a cada mês que se passa, novos prazos para determinações de candidaturas vão se cumprindo. Nesse sentido, a eleição para o governo do Paraná é de grande interesse no tema da Lava Jato, visto que o ex-juiz e atual senador Sergio Moro pretende ser candidato, ainda que muitos entraves já estejam postos.
Com relação às candidaturas que devem concorrer contra Moro caso ele consolide a sua candidatura, uma novidade que se apresentou nas últimas semanas foi a aliança entre o PT e o PDT para o lançamento do nome de Requião Filho ao governo paranaense. A aliança foi costurada ao longo de 2025 para superar os entraves entre o candidato e o Partido dos Trabalhadores, mas que também deve contar com demais partidos tradicionalmente associados à esquerda.
Já pelo lado da direita que se oporá a Moro, Ratinho Jr. ainda tarda a decidir o candidato da situação, enquanto muitos nomes de seu partido, PSD, disputam essa possibilidade. Enquanto o ex-prefeito Rafael Greca começa a aparecer com mais vantagem nas pesquisas que seus correligionários, Alexandre Curi e Guto Silva, Ratinho Jr. chegou a se reunir com Moro, que tentava ainda o apoio do governo atual, mas sem sucesso. Houve, ainda, a refiliação do ex-governador e ex-senador pelo Paraná, Álvaro Dias, ao MDB, sinalizando mais uma força contrária a Moro, dessa vez vinda de antigo aliado do lavajatismo. Em verdade, mesmo integrantes atuais do lavajatismo podem ser armas contra Moro, visto que sua proximidade com figuras como Dallagnol está desgastada e, filiado ao Novo, por vezes é cotado como figura aliada às estratégias eleitorais do atual governo paranaense.
No entanto, o grande problema de Moro no momento não são seus eventuais adversários, nem tampouco as investigações contra si em curso. A principal questão ainda é a de se ele conseguirá mesmo ser candidato nessas eleições. Filiado ao União Brasil, partido que havia garantido a ele a candidatura, o entrave está no PP, que formou uma federação partidária com o partido de Moro, o que, na prática, torna imprescindível que a decisão da candidatura também passe por eles. No entanto, o PP já decidiu por não apoiar a candidatura de Moro, em embate que colocou o deputado Ricardo Barros (PP-PR) como principal antagonista do senador. Ambos afirmam disposições contrárias sobre a candidatura de Moro, mas, se o PP não aceitar terminantemente, apenas com o desmanche da federação (ainda não oficializada no TSE) é que Moro poderia ser candidato. Há ainda a possibilidade de o ex-juiz ser candidato por outro partido menor, e sabe-se da disposição do PRTB (partido de Pablo Marçal) em filiá-lo, mas essa hipótese ainda está no campo especulativo. Para ser candidato nessas eleições, Moro deverá decidir seu partido até abril, pelos prazos eleitorais.
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Referências e outras notícias
- PF encontra provas de grampos ilegais ordenados por Sergio Moro, e novidades sobre Moro continuam a aparecer:
https://www.cartacapital.com.br/politica/pf-encontra-na-13a-vara-a-ordem-de-moro-para-grampear-autoridade/
https://www.conjur.com.br/2025-dez-17/pf-descobre-que-sergio-moro-grampeava-ilegalmente-autoridades/
https://www.intercept.com.br/2025/12/20/quanto-mais-se-investiga-a-lava-jato-pior-fica-para-sergio-moro/
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/ex-juiz-da-lava-jato-pede-para-pf-investigar-moro-por-coacao-em-processo/ - Estreia documentário A Caixa Preta da Lava Jato:
https://jornalggn.com.br/noticia/documentario-a-caixa-preta-da-lava-jato-estreia-hoje-as-21h-live-com-convidados-especiais-comeca-as-20h-no-canal-tvggn/ - Lava Jato e EUA:
https://apublica.org/2025/12/novas-revelacoes-sobre-a-parceria-do-governo-dos-eua-com-a-lava-jato/ - O estigma lavajatista:
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/01/a-imprensa-o-legado-da-lava-jato-e-a-necessidade-de-reenquadrar-narrativas.shtml
https://www.conjur.com.br/2026-jan-13/efeito-lava-jato-a-suspeicao-generalizada-de-indicados-a-cargos-publicos/ - Moro e eleições para o governo do Paraná:
https://www.cartacapital.com.br/politica/contra-moro-pt-decide-apoiar-requiao-filho-ao-governo-do-parana/
https://www.metropoles.com/brasil/moro-procurou-ratinho-jr-em-busca-de-apoio-para-governo-do-parana
https://www.esmaelmorais.com.br/alvaro-dias-frente-ampla-contra-moro/
https://www.esmaelmorais.com.br/ricardo-barros-venceu-moro-uniao-progressista/
https://www.esmaelmorais.com.br/guto-deltan-vice-moro-direita-pr/
