A Operação Lava Jato e a destruição da construção civil nacional em números.
A severidade da crise econômica enfrentada pelo Brasil na segunda década do século XXI ficará marcada pela singularidade de sua causa: o choque institucional provocado pela Operação Lava Jato.
Entre 2014 e 2018, a operação que prometia limpar a corrupção do país tinha como pano de fundo a destruição sistemática do capital produtivo, empregos e tecnologia, ignorando por completo as práticas internacionais de compliance.
O impacto não se restringiu à prisão de executivos, mas promoveu a paralisação de grandes empreiteiras e de empresas cruciais, como a Petrobras. A Operação Lava Jato drenou a liquidez de milhares de fornecedores, dizimou a arrecadação fiscal e paralisou a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF).
Pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIESSE) estima que a operação tenha custado ao país R$ 172,2 bilhões em investimentos não realizados e subtraído 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, além de extinguir 4,4 milhões de postos de trabalho.
O setor da construção civil foi o mais prejudicado. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção estima que entre 2014 e 2018, período mais intenso da operação, o PIB do setor acumulou uma retração de 30%, anulando uma década de avanços em apenas quatro anos.
Nessa seara, estudo publicado pelo DIEESE revela a capilaridade do desastre. A decisão de suspender pagamentos e bloquear ativos das empreiteiras não afetou apenas os gigantes, uma vez que o setor de construção pesada e óleo e gás possui um dos maiores efeitos de encadeamento: para cada 1 real investido na construção, gera-se uma demanda superior em setores de aço, serviços de engenharia, transporte, alimentação e alojamento.
Ao retirar R$ 172,2 bilhões de investimentos previstos – principalmente da Petrobras e das concessionárias de infraestrutura – a Lava Jato provocou uma redução em cadeia que custou R$ 47,4 bilhões em impostos diretos não arrecadados (DIESSE).
Isso agravou o déficit fiscal do governo, criando um ciclo vicioso: a operação gerou queda de arrecadação, que forçou o governo a cortar mais investimentos públicos, deprimindo ainda mais o PIB.
Além disso, a estratégia adotada pela 13ª Vara, ao decretar a inidoneidade das empresas, impediu que o setor público efetuasse contratações e cortou o acesso ao financiamento de bancos estatais, revelando uma estratégia de desmantelamento da indústria nacional, com o objetivo claro provocar o desarranjo institucional que pavimentou o caminho para a ascensão da extrema direita nos anos subsequentes.
As três gigantes do setor da construção – Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS – foram reduzidas a uma fração de seu tamanho. Estima-se que a Odebrecht, com um quadro de quase 200 mil funcionários, tenha perdido cerca de 80% de sua força de trabalho em apenas quatro anos. Andrade Gutierrez viu sua receita despencar de R$ 7,7 bilhões em 2014 para R$ 4,3 bilhões em 2016, enquanto a OAS entrou em colapso financeiro, paralisando obras vitais para o país, como a transposição do Rio São Francisco.
Não para por aí. As exportações de serviços de engenharia do Brasil caíram de mais de US$ 7 bilhões anuais para cerca de US$ 1 bilhão, uma retração de 85%, conforme dados do Banco Central e da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia. Isso representa não apenas perda de divisas, mas a perda de uma plataforma de exportação de produtos industriais brasileiros, já que essas obras costumavam utilizar aço, máquinas e equipamentos fabricados no Brasil.
A devastação econômica provocada pela Lava Jato não foi um efeito colateral inevitável, mas sim o resultado de um projeto, validado por uma atuação midiática coordenada.
Ademais, empreiteiras brasileiras foram forçadas a pagar multas bilionárias aos EUA para se livrar de processos em solo norte-americano. Como muito bem apontado por Luís Nassif, essa cooperação serviu aos interesses geopolíticos dos EUA de enfraquecer competidores no mercado global de engenharia e energia.
O legado da lava jato para a economia brasileira é de um empobrecimento estrutural que ainda produz efeitos. Diante do vazio dos canteiros de obras, o que se revelou foi a existência de um projeto de poder que precisava das ruínas institucionais e econômicas para erguer o seu próprio altar. No balanço final das cinzas, resta a lição de que a justiça, quando se despe para vestir-se de poder, acaba por esculpir o pedestal onde o autoritarismo fincará a sua bandeira.
FONTES:
https://www.dieese.org.br/outraspublicacoes/2021/impactosLavaJatoEconomia.html
https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/rpcsoc/article/view/22851/12248
https://www.brasil247.com/economia/desgastada-com-a-lava-jato-andrade-busca-clientes-privados
https://www.engd.org.br/post/a-desnacionaliza%C3%A7%C3%A3o-da-engenharia-no-brasil
