O clima de nova onda lavajatista segue sendo percebido por diversos analistas, tanto no caso do Banco Master quanto na CPMI do INSS, o que traz preocupação para seu eventual impacto nas eleições de outubro. Também no contexto do lavajatismo eleitoral, Moro demonstra-se já adaptado ao bolsonarismo, a ponto de questionar publicamente a legitimidade das eleições de 2022, mas suas contradições serão um problema para o novo discurso. Ainda, o legado da Lava Jato segue em análise no STF, enquanto a PGR  se aproxima do lavajatismo. Tudo isso na newsletter do Museu da Lava Jato de 09/04/2026.

Caso Master, CPMI e nova Lava Jato:

Conforme tem sido noticiado nos últimos meses, os rumos do caso Master têm causado preocupação por suas semelhanças metodológicas à Lava Jato, desde abuso do poder legal, como a partir de vazamentos seletivos, quanto pelo papel da mídia em transmitir acriticamente o pânico moral e apontar culpados de sua preferência. Os riscos já são conhecidos: perseguição de inocentes, nulidade e impunidade aos culpados e caos político. Nesse sentido, declaração marcante a esse respeito foi de Gilmar Mendes, que, durante voto pela permanência da prisão preventiva de Vorcaro, criticou a argumentação de Mendonça por “conceitos porosos e elásticos” como uma necessidade de pacificação social. Em sequência, citou que o escândalo trouxe “tristes reminiscências dos métodos e expedientes lavajatistas”, e citou também o papel midiático:

“coparticipação de certa parcela da mídia, que passou a funcionar como efetiva assessoria de imprensa da força-tarefa, reproduzindo acriticamente as versões, narrativas e informações repassadas por agentes interessados que, confessadamente, buscavam na manipulação da opinião pública a legitimação para a consecução de seus projetos políticos.”

A mais recente atitude midiática que relembrou seu papel auxiliar à Lava Jato foi o famoso PowerPoint apresentado na GloboNews que tenta ligar a figura do Presidente da República a Vorcaro e ao Banco Master. Trata-se de um evidente retorno às práticas do tempo lavajatista, após um breve recuo com a repercussão da Operação Spoofing que revelou os crimes da Lava Jato.

Não apenas nesse caso, no entanto, que se verifica o recrudescimento do lavajatismo, mas também em casos como o da CPMI do INSS. Mais uma vez se verifica um relatório final com objetivos meramente políticos, com indiciamentos sem provas e pouco interesse em investigações efetivas. Na PGR também surgem elementos preocupantes, como a recente promoção de Januário Paludo, ídolo do lavajatismo, ao cargo de subprocurador geral, o que aumenta o alerta à decisão recente de Gonet em favor de Moro, conforme será abordado mais adiante.

Moro, sem provas, acusa fraude nas eleições de 2022:

Recentemente reoficializado no bolsonarismo, o senador e pré-candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro, tem também começado a realinhar seu discurso político ao de Bolsonaro. No dia 24/03, durante sua cerimônia de filiação ao PL, Moro insinuou que a eleição de Lula à presidência da república em 2022 teria sido fraudulenta, chamando-o de “eleito entre aspas”. A acusação de fraude tem sido parte do discurso bolsonarista desde antes de 2018, com o discurso de que as urnas eletrônicas não seriam confiáveis, sem nunca apresentar nenhuma prova nesse sentido. Também sem prova foi a acusação de Moro, o que pode causar consequências judiciais.

Após a referida fala, acionado pelo deputado Lindbergh, o ministro do STF Alexandre de Moraes encaminhou à PGR pedido para incluir Moro no inquérito das Milícias Digitais, por manter em circulação a falsa ideia de fraude e tentar causar instabilidade institucional. Em outra frente, o deputado também protocolou pedido ao STF de investigação à declaração de Moro, que terá a relatoria de Kassio Nunes Marques.

No entanto, a resposta do PGR Paulo Gonet foi no sentido de rejeitar o pedido, pois caberia ao MP a titularidade da ação penal. A decisão ainda caberá a Alexandre de Moraes.

As contradições políticas de Sergio Moro:

A filiação de Moro ao PL não estava entre os planos iniciais de Moro para a candidatura ao governo do Paraná esse ano, seu objetivo era concorrer pelo União Brasil, mas foi barrado pela federação com o PP. Se o apoio de Bolsonaro é desejável para muitos políticos em busca de um cargo, Moro tentou uma espécie de bolsonarismo sem Bolsonaro, algo que parecesse mais agradável ao eleitor moderado, mas no fim aceitou retomar a aliança firmada em 2018 e finalizada em 2020. Seu grande problema agora é se encaixar nesse grupo político e lidar com as contradições que isso evoca.

Uma das primeiras contradições é de princípio: Moro se lança para a política direto da 13ª Vara Federal de Curitiba, exibido na mídia como um paladino moral que acabaria com a corrupção no Brasil. Desde então, todo seu discurso gira em torno dessa ideia, mas na prática não consegue manter a imagem fabricada pela mídia. Com o União Brasil e PP precisava lidar com os casos de corrupção de seus presidentes, agora no PL é com Valdemar Costa Neto, que já declarou ter mudado de opinião sobre Moro apenas por precisar “dos votos dele”. Já no debate sobre a impunidade que privilegia juízes com aposentadoria como punição máxima a magistrados, Moro apresentou uma emenda que abre brecha para blindar juízes de crimes sexuais. Com a repercussão negativa, Moro recuou para alterar esse aspecto da emenda.

No entanto, a contradição mais direta seguirá sendo o motivo de seu rompimento com o bolsonarismo em 2020. Após deixar o Ministério da Justiça, Moro disse que o fez, pois Bolsonaro teria intervido na indicação para a Polícia Federal em busca de proveitos políticos e evitar investigações. O ex-juiz chegou a dizer que a decisão visava proteger sua biografia. Recentemente, o caso tem sido levantado, e as respostas de Moro têm sido evasivas e destemperadas, resumindo-se a acusar as perguntas de falaciosas. Fica evidente que o candidato ao governo do Paraná ainda não sabe como justificar sua aliança com políticos a quem ele mesmo denunciou corrupção no passado, e com a clareza com que Moro expressou sua visão no passado, a negação não sai nada convincente. Em sua autobiografia, Moro não apenas relembra o caso, mas também fala que Bolsonaro não cumpriu suas promessas eleitorais e que interviu na PF com o objetivo de impedir investigações a seu filho, Flávio Bolsonaro, a quem Moro hoje se compromete a fazer palanque na disputa presidencial.

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