COM UMA DÉCADA APÓS SEU INÍCIO E CINCO ANOS APÓS SEU FIM, LAVA JATO AINDA MACULA ELEIÇÕES. Confira essas e outras notícias na newsletter das últimas semanas 29/09/26.
O lavajatismo na eleição presidencial:
Com a proximidade do primeiro turno das eleições brasileiras, uma afirmação pode ser feita a respeito da campanha nos últimos meses: o lavajatismo segue ativo no discurso político e nas práticas judiciais de intromissão eleitoral. Especificamente com relação às principais candidaturas presidenciais, há uma clara distinção entre a denúncia do legado da operação e aqueles que tentam ainda reivindicar seu discurso.
Do lado da denúncia à Lava Jato, naturalmente está Lula, candidato à reeleição que, em 2018, foi barrado de concorrer por uma condenação sem provas e uma prisão ilegal. Sua denúncia ao lavajatismo é conhecida, mas o momento mais marcante do processo eleitoral a esse respeito foi em sua sabatina no Jornal Nacional. No dia 27/08, Lula compareceu à Rede Globo em entrevista conduzida pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, e, mesmo tratando de assuntos diversos, o tom lavajatista foi o elemento central. Tal qual a emissora fazia há uma década, a lógica acusatória e sensacionalista foi a marca ao abordar os temas policialescos da política recente. Casos que sequer envolvem a presidência foram atirados para prejudicar o candidato, com mais enfoque que temas centrais de economia e governança, sem demonstrar muito aprendizado com relação ao jornalismo dos tempos de Lava Jato.
A resposta do presidenciável fez alusão a esse passado, citou o PowerPoint de Dallagnol, semelhante a outro recentemente apresentado na emissora, e como nunca houve um esforço em desfazer a deterioração causada em anos de sensacionalismo. A resposta oficial não veio imediatamente na sabatina, mas em editorial do Globo do dia 30, no qual afirmaram não ter pelo que se desculpar. Essa postura com relação à memória da operação explica um pouco a presença perene do tema e de suas práticas na eleição em andamento.
Entre os principais candidatos presidenciais, não foi só Lula a abordar a Lava Jato. O caso mais expressivo é o de Flávio Bolsonaro, que, após filiar Sergio Moro em seu partido para lançar sua candidatura ao governo do Paraná, o utilizou em seu palanque uma série de vezes. Efetivamente, Flávio usou o ex-juiz lavajatista de escudo para qualquer acusação de corrupção contra si. Construído como espécie de herói contra a corrupção pela mídia ao longo de uma década, Moro com frequência foi questionado sobre as contradições de seu apoio ao presidenciável, inclusive pela forma como deixou o governo de Jair Bolsonaro – acusou-o de querer interferir no comando da PF para livrar seu filho, o próprio Flávio. A tudo isso, o candidato ao governo paranaense se resumiu a responder que o PT e o Lula seriam os responsáveis por toda a corrupção.
Não só o candidato do PL utilizou a apologia à Lava Jato como peça de campanha. O ex-governador de MG também o fez, com ato em frente à PF, onde Lula esteve ilegalmente preso. Ainda, Ronaldo Caiado, foi outro a utilizar a operação em seu discurso, mas de uma forma mais específica. Em sua sabatina no JN, Caiado tentou conciliar o discurso bolsonarista com o da chamada terceira via moderada, de forma que, para ele, a anistia aos golpistas do 08/01 seria o caminho para pacificar o país, e seria equiparável aos processos da Lava Jato anulados. A comparação, por óbvio, não faz nenhum sentido, visto que o conluio e a falta de provas que motivaram as anulações citadas em nada se assemelham à tentativa de desconfigurar a lei contra tentativa de golpe de Estado. Sem ser devidamente corrigido por essa lógica deturpada, trata-se de mais um exemplo da necessidade de preservar a memória da Lava Jato, de seus abusos de poder, que também foi um projeto contra a democracia brasileira.
Notícias a respeito:
https://jornalggn.com.br/politica/na-globo-lula-evoca-lava-jato-ao-criticar-vazamentos-sobre-fabio-luis
https://www.brasil247.com/midia/lula-critica-imprensa-comercial-por-atuacao-durante-a-lava-jato-comprou-uma-mentira-e-nunca-reconheceu-video
https://www.brasil247.com/midia/eu-nao-esqueco-do-powerpoint-mentiroso-contra-mim-afirma-lula-ao-criticar-lava-jato-na-globo
https://www.brasil247.com/geral/nao-ha-do-que-se-desculpar-globo-reafirma-seu-compromisso-com-a-lava-jato-e-insulta-os-brasileiros
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/08/26/ronaldo-caiado-compara-anistia-atos-golpista-lula-lava-jato
https://g1.globo.com/pr/parana/eleicoes/2026/noticia/2026/08/31/agenda-zema-parana-curitiba.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/opiniao/ainda-sobre-a-lava-jato
O neo-lavajatismo no caso Master e na crise no STF:
O escândalo do Banco Master, desde sua eclosão no ano passado, prometia se tornar assunto relevante no debate eleitoral. A escalada do caso, no entanto, pôs em dúvida a evolução da responsabilidade jornalística e da resistência institucional do Judiciário brasileio. O processo foi novamente tomado pela espetacularização, por vazamentos seletivos e por condenação prematura pelos veículos de imprensa. Houve um grande esforço de responsabilizar o governo por elementos que não o envolviam, isso tudo antes mesmo do início da campanha eleitoral. O risco de medidas que atropelam o processo é conhecido, algo especialmente crítico considerando a gravidade do caso. Se a chance de repetir as nulidades e as injustiças da Lava Jato já era preocupante, a intromissão no processo eleitoral só aprofundou o problema.
Pouco antes da crise no STF que marcou o decorrer da eleição, o ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, já levantava suspeitas de querer atuar como uma espécie de novo Sergio Moro por sua atuação no caso Master. No entanto, sua ofensiva contra Alexandre de Moraes, que em pouco tempo culminou em revelar o seu próprio histórico com o banqueiro Vorcaro, surpreendeu pela tamanha desfaçatez em tentar beneficiar a candidatura bolsonarista, conhecida por eleger Moraes como principal inimigo na corte. Ainda, coordenadamente, o esforço de associar Moraes a Lula teve efeito notável na campanha, ainda que o ministro, indicado por Michel Temer, nunca tenha se demonstrado ideologicamente ligado ao PT.
Sem ser possível efetivamente calcular o impacto da crise no STF, tanto na campanha eleitoral, quanto na instituição e no caso Master em si, o certo é que trata-se de um exemplo de reincidência dos métodos lavajatistas no processo judicial e eleitoral.
Notícias a respeito:
https://revistaforum.com.br/revista-forum/procuradores-lava-jato-vazamento-lulinha-veja-pf
https://jornalggn.com.br/politica/jose-genoino-critica-suposta-reedicao-da-lava-jato
https://revistaforum.com.br/politica/jn-vladimir-netto-lulinha
https://www.intercept.com.br/2026/09/21/imprensa-caso-master-escolhe-sombra/
https://www.migalhas.com.br/quentes/464603/dino-cita-lava-jato-e-alerta-para-erros-do-passado-no-stf
https://www.brasil247.com/midia/mario-vitor-santos-andre-mendonca-e-a-nova-lava-jato
https://oglobo.globo.com/blogs/bernardo-mello-franco/coluna/2026/08/andre-mendonca-sera-o-novo-sergio-moro.ghtml
https://www.brasil247.com/blog/andre-mendonca-e-a-ressurreicao-do-metodo-lava-jato/
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/nao-podemos-repetir-erros-da-lava-jato-no-caso-master-diz-especialista/
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn4k321em39o
https://www.brasil247.com/blog/entenda-em-cinco-eixos-o-que-a-pf-pretende-esclarecer-dark-horse/
https://www.cartacapital.com.br/politica/gilmar-mendes-chama-mendonca-de-pixuleco-eleitoral-e-compara-o-caso-master-a-lava-jato
A questão da inelegibilidade de Dallagnol:
A novela da candidatura de Dallagnol foi outro marco lavajatista nas eleições de 2026, não apenas por ele ser um dos nomes fortes da operação na política, mas pela forma como os tribunais agiram ao longo do debate. Cassado em 2023 de seu mandato de deputado, visto que anteriormente havia se desincumbido do cargo de procurador às vésperas de ser condenado pelas irregularidades cometidas, naturalmente o ex-procurador deveria estar inelegível por 8 anos. Ocorre que esse fato não foi taxativamente declarado em sua cassação e, com base nesse detalhe e na cumplicidade do TRE-PR, o caso se estende até a semana da eleição.
Após passar alguns meses tentando censurar quem debatia sua elegibilidade, com apoio inicial do TRE-PR e reversão por Flávio Dino, Deltan teve parecer favorável do MPE-PR e, em seguida, manutenção da candidatura pelo TRE-PR. A decisão do tribunal regional paranaense surpreendeu pelos argumentos utilizados, mas não tanto pelo favorecimento a um nome ligado à Lava Jato. É de amplo conhecimento a função homologadora do TRF-4 durante a extensão da operação, e tal decisão do TRE-PR se une a esse histórico. Já julgado o recurso que manteve, novamente, a candidatura de Dallagnol, resta o recurso ao TSE. Um indício do eventual julgamento da corte superior foi dado pela decisão de suspensão da campanha do lavajatista, algo com função cautelar, visto que só diz respeito aos atos eleitorais. A manutenção, pela maioria dos votos no TSE, é indício do direcionamento da corte no recurso que pode, por fim, indeferir a candidatura de Dallagnol.
Há menos de uma semana do primeiro turno, aguarda-se o julgamento final, mas algumas consequências da demora já são definitivas: Deltan terá seu nome na urna e não poderá indicar substituto. Em caso de indeferimento, os votos serão computados, mas não terão validade. Por outro lado, se a decisão não vier a tempo e Deltan vier a se eleger, a tendência é uma nova cassação de mandato, que ocasionaria uma eleição substitutiva.
Notícias a respeito:
https://www.cartacapital.com.br/politica/disputa-sobre-inelegibilidade-de-dallagnol-volta-ao-tre-as-vesperas-da-eleicao/
https://conjur.com.br/2026-ago-01/rde-coisa-julgada-e-precedente-o-caso-deltan-em-2026/
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/19/mpe-do-parana-da-parecer-favoravel-a-candidatura-de-deltan-dallagnol-ao-senado-em-2026.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/politica/tre-pr-aprova-registro-de-candidatura-de-deltan-dallagnol-ao-senado/
https://www.plural.jor.br/poder/o-risco-dallagnol-parana-podera-ser-obrigado-a-fazer-nova-eleicao-para-vaga-no-senado
https://www.cartacapital.com.br/politica/dallagnol-expoe-dados-sigilosos-de-zanin-em-registro-de-candidatura-e-ministro-pede-responsabilizacao/
https://conjur.com.br/2026-set-20/tse-suspende-campanha-de-deltan-dallagnol-ao-senado/
https://www.cartacapital.com.br/politica/tse-forma-maioria-para-manter-suspensao-da-campanha-ao-senado-de-deltan-dallagnol
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/27/tre-do-para-ve-campanha-substitutiva-de-deltan-por-aliados-apos-suspensao-manda-retirar-posts-e-avisa-tse.ghtml
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/21/com-a-campanha-proibida-dallagnol-nao-pode-mais-ser-substituido-ao-senado-na-chapa-de-moro-no-pr.ghtml
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/23/tre-pr-conclui-julgamento-e-mantem-registro-de-deltan-dallagnol-tse-dara-palavra-final-com-nome-ja-nas-urnas.ghtml
A candidatura de Moro:
Outro nome da Lava Jato nas eleições de 2026 é o do ex-juiz e atual senador Sergio Moro, que, para conseguir sua candidatura, teve que se filiar ao PL de Flávio Bolsonaro no início do ano. Desde sua saída do Ministério da Justiça e da Segurança Pública em 2020, Moro tentava se apresentar ao eleitorado como uma alternativa moderada ao bolsonarismo. Da mesma forma que tantos que tentaram o mesmo caminho, foi mal-sucedido e acabou retornando ao círculo de influência do ex-presidente, junto de todas as contradições que tal decisão evoca. O mês de campanha tampouco foi muito produtivo, e viu apenas sua intenção de votos desacelerar.
Entre os elementos que marcaram o mês do ex-juiz esteve a acusação de falta de propostas por seus opositores. Além da demora em apresentar um plano de governo, também se destacou como nos últimos dois meses no Senado, suas emendas destinaram-se a um número muito menor de municípios que seus colegas de saída da casa: Flávio Arns e Oriovisto Guimarães. O desconhecimento sobre o estado não foi o único problema, na medida em que os esforços de Moro para demonstrar-se próximo politicamente ao governador Ratinho Jr. também foram duramente contrariados e expostos em campanha.
Quando efetivamente se chega aos projetos apresentados pelo lavajatista, encontra-se uma estranha mescla da extrema-direita latino-americana: a segurança de Bukele e a economia de Milei. Incompatíveis pela mera natureza dos gastos públicos, ambos os exemplos são famosos por violar direitos humanos e alavancar a fome de seu povo, respectivamente. Tampouco pode-se supor que tais projetos guardem alguma semelhança com a realidade brasileira e possam ser aplicados pelo nível de governança estadual. Ainda, não poderia faltar o carro-chefe de sua carreira política: o populismo judicial. Com um plano de agência paranaense anti-corrupção, o ex-juiz tentou reviver sua fama dos tempos de Lava Jato, mas sem a mídia em seu favor e com uma série de contradições a resolver: ao longo a campanha Moro saiu em defesa do presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto, foi favorável à tentativa de intervenção na PF de André Mendonça, fez campanha ao colega Dallagnol, cassado da Câmara em 2023, e foi chamado a declarar a inocência de Flávio Bolsonaro todas as vezes em que seu nome voltou a ser citado no caso Master.
Por fim, a campanha de Moro também foi marcada pela doação de volumosa quantia no mesmo dia por diferentes assessores seus no Senado. Em resumo, em um mês Moro teve uma jornada que reafirmou eloquentemente sua pertença às realidades da política, sem nada restar da figura heróica e antissistema construída pela mídia para ele nos tempos de 13ª Vara Federal de Curitiba. O resultado é dúbio, na medida em que o grande número de pesquisas eleitorais leva a resultados muito variados. No entanto, consolidaram-se as candidaturas de seus opositores: Requião Filho (PDT) pela esquerda e Sandro Alex (PSD) como nome de Ratinho Jr. na disputa. Seu nome não chegou a ultrapassar a esperada marca dos 50% para uma vitória no primeiro turno, e o último resultado da pesquisa Quaest mostra um cenário embaralhado para o próximo domingo.
Notícias a respeito:
https://www.cartacapital.com.br/politica/psd-do-parana-quer-impugnar-candidatura-de-moro-por-ausencia-de-plano-de-governo
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https://www.plural.jor.br/poder/moro-foge-de-pergunta-sobre-voo-de-flavio-em-aviao-de-vorcaro-e-poe-a-culpa-em-lula
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https://g1.globo.com/pr/parana/eleicoes/2026/noticia/2026/09/24/quaest-no-parana-pesquisa-setembro.ghtml
